Saúde mental da mãe atípica: sinais de alerta e onde buscar ajuda

Por Aline Coelho Xavier Previdelli

Educadora e pesquisadora independente – IA Inclusiva na Prática

Duas mulheres conversando num banco de praça, uma delas segurando uma xícara

Série Cuidando de quem cuida · Parte 3

Saúde mental da mãe atípica: sinais de alerta e onde buscar ajuda

“Depois eu vejo isso.”

Você marca a fono, o neuropediatra, a TO, a reunião da escola. A sua consulta fica para depois. E o depois não chega.

Este texto é sobre esse depois. Sobre como perceber quando o cansaço deixou de ser só cansaço e como chegar ao cuidado, de graça, pelo SUS.

O que a pesquisa diz

Uma revisão que reuniu 31 estudos com mais de 9 mil mães e pais de crianças autistas encontrou sintomas de depressão em cerca de 31% deles e de ansiedade em cerca de 33% (Schnabel et al., 2020). No Brasil, um estudo da UFRGS encontrou sinais de estresse em 7 de cada 10 mães (Schmidt e Bosa, 2007).

Esses números não dizem que você tem um transtorno. Dizem que, se você está sofrendo, está longe de ser a única. E que o sofrimento tem relação com o tamanho da carga e com a falta de apoio, como mostramos no artigo de abertura da série, e não com algum defeito seu.

Sinais de que o cansaço passou do limite

Cansaço depois de um dia difícil é esperado. O alerta é quando ele não passa, mesmo quando você descansa. Use a tabela como um espelho, não como diagnóstico.

SinalO que fazer
Dorme mal quase todas as noites; acorda cansada; irrita-se com coisas pequenasAtenção. Converse com alguém de confiança e reorganize uma tarefa da semana (veja a Parte 1)
Há duas semanas ou mais: tristeza na maior parte do dia, perda de interesse no que antes gostava, choro frequente, sensação de vazioMarque consulta na UBS esta semana
Dores no corpo, palpitações, falta de ar, crises de ansiedade, uso de álcool ou remédios para “aguentar”Marque consulta na UBS esta semana
Pensar que a família estaria melhor sem você, ou que não quer mais viverProcure ajuda hoje: CVV 188, SAMU 192 ou a UPA mais próxima

Se você se reconheceu na última linha, pare a leitura aqui e ligue para o 188. A ligação é gratuita, 24 horas, e você pode falar sem dar o seu nome.

Como funciona o cuidado em saúde mental pelo SUS

Você não precisa estar em crise para procurar o SUS. Ele tem portas diferentes para momentos diferentes.

  1. UBS (Unidade Básica de Saúde): a porta de entrada. Marque uma consulta com a médica ou o enfermeiro de família e conte o que está sentindo. A UBS pode atender você ali mesmo, quando tem psicólogo na equipe, ou encaminhar para outro serviço.
  2. CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): para sofrimento intenso ou que não passa. Você pode ir direto, sem encaminhamento, no horário de acolhimento. Alguns CAPS, os do tipo III, funcionam 24 horas.
  3. UPA ou SAMU 192: para emergências, a qualquer hora.
  4. CVV 188: conversa gratuita e sigilosa, 24 horas, também pelo chat em cvv.org.br. Não substitui tratamento, mas ajuda a atravessar uma noite difícil.

Fora do SUS, vale procurar as clínicas-escola de Psicologia das universidades da sua região. Muitas atendem de graça ou com valor simbólico, com estudantes supervisionados por professores.

O que dizer na consulta

Muitas mães chegam à UBS e falam só do filho. Ou dizem “estou cansada” e saem com a recomendação de descansar. Seja específica. Você pode ler este roteiro na consulta:

“Sou cuidadora em tempo integral de um filho com [condição]. Há [tempo] estou [dormindo mal / chorando todos os dias / com crises de ansiedade]. Não estou dando conta e quero ser acompanhada. Gostaria de saber se posso ter atendimento com psicólogo aqui ou ser encaminhada.”

Dizer “sou cuidadora em tempo integral” muda a escuta do profissional, porque ele passa a enxergar a carga, e não só os sintomas.

Pequenas proteções no dia a dia

Nada disso substitui tratamento quando ele é necessário. Mas a pesquisa com mães de crianças autistas mostra que o apoio da família está entre o que mais protege contra o estresse (Faro et al., 2019). Alguns jeitos de puxar esse apoio:

  • Peça duas horas, com dia e hora. “Você fica com ele no sábado das 14h às 16h?” é mais fácil de aceitar do que “preciso de uma folga”.
  • Use as duas horas para você. Não para o mercado nem para a faxina.
  • Diga a uma pessoa como você está de verdade. Uma amiga, uma irmã, outra mãe do grupo de terapia.
  • Corte uma exigência. O jantar pode ser simples. A casa pode ficar bagunçada. O que você não precisa carregar esta semana?

Cuidar de você não é tirar algo do seu filho. É garantir que a pessoa de quem ele mais depende continue de pé.

E a inteligência artificial?

Como dissemos na Parte 1, a IA pode ajudar a organizar a rotina e a preparar o que dizer numa consulta. Mas chatbots não fazem psicoterapia, não percebem quando você está em risco e não acompanham a sua história. Para a sua saúde mental, procure gente.

Se você se reconhece no seu filho

Algumas mães descobrem, depois do diagnóstico do filho, que também são autistas ou têm TDAH, e que parte do esgotamento vem de anos tentando funcionar como se não fossem. Esse é o tema da Parte 4 desta série.

Um passo hoje

Escolha um, só um:

  • Salve o 188 no celular.
  • Marque a sua consulta na UBS.
  • Mande uma mensagem pedindo duas horas no sábado.

Você cuida de tanta gente. Este passo é para você.

Continue lendo a série

Série Cuidando de quem cuida

  1. Mães atípicas e invisíveis: direitos e caminhos de apoio
  2. Parte 1 – IA para mães atípicas: como aliviar a carga mental com segurança
  3. Parte 2 – Rotina visual em casa: como apoiar a autonomia da criança
  4. Parte 3 – Saúde mental da mãe atípica: sinais de alerta e onde buscar ajuda (você está aqui)
  5. Parte 4 – Mãe autista: quando o diagnóstico do filho revela o seu
  6. Parte 5 – Família atípica e escola: como acolher sem julgar (em breve)

Referências

  • FARO, K. C. A. et al. Autismo e mães com e sem estresse: análise da sobrecarga materna e do suporte familiar. Psico, v. 50, n. 2, e30080, 2019. DOI.
  • SCHMIDT, C.; BOSA, C. A. Estresse e auto-eficácia em mães de pessoas com autismo. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 59, n. 2, p. 179-191, 2007. PDF.
  • SCHNABEL, A. et al. Psychopathology in parents of children with autism spectrum disorder: a systematic review and meta-analysis of prevalence. Autism, v. 24, n. 1, p. 26-40, 2020. DOI. Volume e páginas citados de memória: confira.
  • Funcionamento da rede de saúde mental no SUS (UBS como porta de entrada; acesso direto ao CAPS; CAPS III 24 horas): conferido em reportagem da Band. Para uma fonte oficial, sugiro linkar a página da Secretaria de Saúde do seu estado ou a página da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no site do Ministério da Saúde. Não abri essa página, então confira o link antes de usar.
  • CVV (188), SAMU (192) e UPA: serviços públicos de amplo conhecimento, sem fonte específica no texto.

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