Por Aline Coelho Xavier Previdelli
Educadora e pesquisadora independente – IA Inclusiva na Prática

Série Cuidando de quem cuida · Parte 4
Mãe autista: quando o diagnóstico do filho revela o seu
A profissional lê o relatório do seu filho em voz alta. Dificuldade com barulho. Necessidade de rotina. Interesses muito intensos. Cansaço depois de festas.
E você pensa, quase sem querer: “Mas isso sou eu.”
Se esse pensamento já passou pela sua cabeça, este texto é para você. Ele não vai dizer se você é autista ou tem TDAH. Isso só uma avaliação pode dizer. Mas vai explicar por que essa experiência é tão comum e o que você pode fazer com ela.
Por que tantas mães se reconhecem no filho
O autismo tem um componente hereditário forte. Um estudo com mais de 2 milhões de pessoas, em cinco países, estimou que cerca de 80% da variação no risco de autismo se explica por fatores genéticos (Bai et al., 2019).
Isso não quer dizer que toda mãe de criança autista seja autista. Quer dizer que é comum encontrar traços parecidos em pais, mães, irmãos e avós. O TDAH também costuma aparecer em várias pessoas da mesma família.
Por isso, o diagnóstico de um filho às vezes funciona como um espelho. Pela primeira vez, alguém dá nome a coisas que você sempre sentiu e nunca soube explicar.
Por que tantas mulheres só descobrem adultas
Três motivos ajudam a entender.
1. Os critérios foram construídos olhando para meninos. Uma revisão de 54 estudos encontrou cerca de 4 meninos autistas para cada menina. Mas, nos estudos que avaliaram todos os participantes ativamente, em vez de usar só prontuários, a proporção caiu para cerca de 3 para 1. Os autores sugerem que muitas meninas autistas passam despercebidas (Loomes, Hull e Mandy, 2017).
2. Muitas mulheres aprendem a camuflar. Num estudo com 92 adultos autistas, a maioria mulheres, os participantes descreveram estratégias para “parecer normal”: decorar regras de conversa, forçar contato visual, imitar colegas, esconder movimentos repetitivos. A consequência mais relatada foi a exaustão, junto com ansiedade e estresse. Vários disseram que camuflar atrasou o próprio diagnóstico (Hull et al., 2017).
3. O Brasil diagnostica sobretudo crianças. No Censo 2022, a proporção de pessoas com diagnóstico de autismo foi de 1,5% entre homens e 0,9% entre mulheres, e se concentra nas idades escolares (IBGE, 2025). Entre adultos, os números caem muito. Não porque existam menos autistas, mas porque gerações inteiras nunca foram avaliadas.
Experiências que muitas mulheres relatam
Esta lista não é um teste. Muitas dessas experiências aparecem também em quadros de ansiedade, depressão ou simplesmente em quem vive sobrecarregada. Use como ponto de partida para uma conversa com um profissional, não como conclusão.
| Área | O que muitas mulheres autistas ou com TDAH relatam |
|---|---|
| Social | Ensaiar conversas antes; sentir que “atua” em reuniões; precisar de horas sozinha depois de um evento |
| Sensorial | Incômodo forte com barulho, luz, cheiros, etiquetas de roupa ou toque inesperado |
| Rotina | Desorganizar-se quando o plano muda de última hora |
| Interesses | Mergulhar fundo num tema por meses ou anos |
| Atenção e organização | Esquecer compromissos mesmo com esforço; começar muitas coisas; perder objetos o tempo todo (mais associado ao TDAH) |
| Cansaço | Exaustão que não parece proporcional ao que você fez no dia |
Vale a pena buscar diagnóstico?
A decisão é sua. Não existe resposta certa para todo mundo. Algumas coisas para pesar:
O que muitas mulheres relatam ganhar:
- Alívio ao entender a própria história, sem a explicação de que eram “difíceis”, “sensíveis demais” ou “preguiçosas”
- Estratégias pensadas para o seu jeito de funcionar
- Acesso a direitos: pela Lei Berenice Piana, a pessoa autista é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais (Lei 12.764/2012)
O que pode pesar:
- Filas longas no SUS e custo alto na rede particular
- Revisitar memórias difíceis da infância
- Lidar com reações da família
Muitas pessoas também se reconhecem sem um laudo formal. Isso é legítimo para o autoconhecimento. Para acessar direitos, porém, o laudo costuma ser exigido.
Como buscar avaliação
- Pelo SUS: comece pela UBS. Conte o que você percebeu e peça encaminhamento para avaliação em saúde mental. Dependendo da sua cidade, o caminho passa por CAPS, ambulatório de saúde mental ou Centro Especializado em Reabilitação. As filas variam muito de um lugar para outro.
- Clínicas-escola de universidades: muitos cursos de Psicologia oferecem avaliação neuropsicológica gratuita ou de baixo custo.
- Rede particular ou plano de saúde: em geral, a avaliação envolve um psiquiatra e uma avaliação neuropsicológica. Pergunte antes se o profissional tem experiência com autismo e TDAH em mulheres adultas.
Prepare-se para a consulta. Anote exemplos concretos de hoje e da infância. Se puder, pergunte a familiares como você era quando criança. Leve boletins ou cadernos antigos.
A IA pode ajudar a organizar essas anotações, como mostramos na Parte 1. Mas não peça a ela um diagnóstico. Ela não tem como fazer isso, e pode errar com muita segurança.
Mãe autista não é mãe menos capaz
Se você for autista ou tiver TDAH, isso não diminui em nada a mãe que você é. Muitas mães neurodivergentes contam que entendem o filho de um jeito que outras pessoas não conseguem: sabem o que é se sentir sobrecarregada num lugar barulhento ou precisar de previsibilidade.
O que pode mudar é o tamanho do esforço que você faz para dar conta, e o direito de pedir apoios que façam sentido para você:
- Comunicação por escrito com a escola e os terapeutas, em vez de ligações e reuniões longas sem pauta
- Tempo de recuperação planejado depois de dias muito sociais, como festas e consultas em sequência
- Fones com cancelamento de ruído em salas de espera e mercados
- Uma rotina visual para você também. A Parte 2 serve para a casa inteira
Se o cansaço já estiver pesado demais, a Parte 3 mostra os sinais de alerta e os caminhos de cuidado pelo SUS.
Sua história também importa
Você passou anos cuidando do diagnóstico, das terapias e da escola de outra pessoa. Olhar para a sua própria história não é egoísmo, nem distração. Pode ser justamente o que torna o resto mais leve.
Se você se reconheceu aqui, comece pequeno: anote três situações da sua vida que agora fazem mais sentido. Só isso. O próximo passo, você decide depois.
Continue lendo a série
Série Cuidando de quem cuida
- Mães atípicas e invisíveis: direitos e caminhos de apoio
- Parte 1 – IA para mães atípicas: como aliviar a carga mental com segurança
- Parte 2 – Rotina visual em casa: como apoiar a autonomia da criança
- Parte 3 – Saúde mental da mãe atípica: sinais de alerta e onde buscar ajuda
- Parte 4 – Mãe autista: quando o diagnóstico do filho revela o seu (você está aqui)
- Parte 5 – Família atípica e escola: como acolher sem julgar (em breve)
Referências
- BAI, D. et al. Association of genetic and environmental factors with autism in a 5-country cohort. JAMA Psychiatry, v. 76, n. 10, p. 1035-1043, 2019. DOI. Herdabilidade mediana de 80,8% (IC 95%: 73,2–85,5%), em 2.001.631 pessoas. (Agora conferido. Pode tirar o aviso do artigo-pilar.)
- BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012 (Lei Berenice Piana), art. 1º, § 2º.
- HULL, L. et al. “Putting on my best normal”: social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 47, n. 8, p. 2519-2534, 2017. DOI.
- IBGE. Censo 2022 identifica 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil. Agência IBGE Notícias, 23 maio 2025.
- LOOMES, R.; HULL, L.; MANDY, W. P. L. What is the male-to-female ratio in autism spectrum disorder? A systematic review and meta-analysis. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, v. 56, n. 6, p. 466-474, 2017. Dados conferidos na cobertura do The Transmitter (54 estudos; 4,2:1 no geral; 3,25:1 com avaliação ativa). Volume, páginas e DOI (10.1016/j.jaac.2017.03.013)

