Por Aline Coelho Xavier Previdelli
Educadora e pesquisadora independente – IA Inclusiva na Prática

Porque nenhuma tecnologia substitui o olhar pedagógico do professor
Quando falamos em Inteligência Artificial na educação inclusiva, é comum que a conversa comece pelas ferramentas. Mas, na prática escolar, quem vive o cotidiano da inclusão sabe: não existe tecnologia capaz de substituir o olhar atento de quem acompanha o aluno todos os dias.
Antes de pensar em plataformas, prompts ou automações, existe uma pergunta que precisa ser respondida com honestidade:
A escola já construiu as bases pedagógicas e humanas necessárias para usar a IA com responsabilidade?
Esse artigo não é um manual técnico.
É um convite à reflexão, e à ação, a partir da realidade de quem está no centro da educação inclusiva: o professor e o PEI.
1. O PEI vem antes da IA, e quem constrói o PEI é o professor
Na educação inclusiva, o Plano Educacional Individualizado (PEI) não é um documento burocrático. Ele é o registro vivo do percurso de um aluno real, com necessidades, potencialidades e desafios específicos.
É no PEI que o professor:
- observa,
- registra,
- testa estratégias,
- avalia avanços,
- e ajusta caminhos.
A Inteligência Artificial não cria esse olhar.
Ela só pode apoiar aquilo que já foi pensado pedagogicamente.
Na prática, quando o PEI não está claro ou atualizado, a IA não personaliza, ela apenas generaliza.
Por isso, antes de qualquer uso de tecnologia, a pergunta precisa ser simples e honesta:
Nós sabemos, de fato, quem é esse aluno e o que ele precisa aprender agora?
2. Dados de alunos exigem cuidado, e isso também protege o professor
Muitos professores sentem insegurança ao usar IA porque não sabem até onde podem ir. Esse medo é legítimo.
Informações sobre alunos com deficiência ou necessidades educacionais específicas são sensíveis e exigem:
- sigilo,
- uso consciente,
- e responsabilidade institucional.
Na maioria das situações pedagógicas, não é necessário usar nome, laudo ou histórico completo do aluno para planejar uma atividade com apoio da IA. O contexto pedagógico, descrito de forma ética e cuidadosa, costuma ser suficiente.
Quando a escola orienta claramente esse uso, ela não apenas protege o aluno, ela protege o professor, que deixa de agir no improviso ou na dúvida.
3. A IA não decide pelo aluno, ela apoia o professor
Aqui está um ponto essencial que precisa ser dito com clareza.
A Inteligência Artificial:
- não diagnostica,
- não substitui avaliações pedagógicas,
- não decide estratégias sozinha.
Quem faz isso é o professor, em diálogo com a equipe pedagógica.
A IA pode:
- ajudar a organizar ideias,
- sugerir adaptações,
- apoiar o planejamento,
- ampliar repertório de estratégias.
Mas a decisão continua sendo humana.
Quando isso fica claro, a tecnologia deixa de ser ameaça e passa a ser apoio, especialmente em um contexto em que o professor já carrega tantas responsabilidades.
4. Governança não é controle, é segurança para a prática pedagógica
Em muitas escolas, a ausência de orientação gera dois extremos:
- professores que evitam totalmente a IA por medo,
- professores que usam sem critério, por falta de referência.
Nenhum dos dois caminhos é saudável.
A governança entra justamente para responder perguntas simples do cotidiano:
- Para quais finalidades a IA pode ser usada?
- Em que tipo de atividade?
- Com quais cuidados?
- Com que apoio institucional?
Quando essas respostas existem, o professor ganha segurança para experimentar, errar, ajustar e aprender, sem se sentir exposto.
5. Desenvolvimento de pessoas vem antes da transformação digital
Nenhuma inovação se sustenta se quem está na ponta não se sente preparado.
Na prática escolar, o que mais aparece não é resistência à tecnologia, mas:
- medo de errar,
- insegurança,
- sobrecarga,
- falta de tempo para aprender com calma.
Formar professores para o uso da IA não é ensinar comandos.
É ajudar a pensar pedagogicamente com apoio da tecnologia, respeitando o ritmo e o contexto de cada escola.
Quando o professor se sente apoiado, a IA vira aliada.
Quando se sente pressionado, a IA vira mais uma cobrança.
Conclusão: a IA só faz sentido quando fortalece o trabalho do professor
Escolas que integram a Inteligência Artificial com responsabilidade não começam pela ferramenta.
Começam pelo PEI, pelo professor e pelo cuidado com o processo pedagógico.
Quando a tecnologia é usada para apoiar, e não substituir, o trabalho docente, ela deixa de ser modismo e passa a ser acessibilidade real, especialmente na educação inclusiva.
A pergunta final não é “qual IA usar?”, mas sim:
Como a tecnologia pode apoiar melhor quem já faz a inclusão acontecer todos os dias?
Direcionamento prático para quem leu até aqui
Se você é professor ou gestor e quer começar com mais segurança:
- comece revisitando o PEI,
- organize informações pedagógicas essenciais,
- defina critérios claros de uso da IA,
- e priorize formação com foco na prática real.
Pequenos passos conscientes geram mudanças sustentáveis.
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Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008.
BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).
FLORIDI, L. et al. AI4People—An Ethical Framework for a Good AI Society. Minds and Machines, 2018.
KENSKI, V. M. Educação e tecnologias: o novo ritmo da informação. Campinas: Papirus, 2012.
MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar: o que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.
OECD. Artificial Intelligence in Education: Challenges and Opportunities. Paris: OECD Publishing, 2021.
UNESCO. Guidance for Generative AI in Education and Research. Paris: UNESCO, 2023.


