IA para adaptar atividades: 5 ferramentas gratuitas

Por Aline Coelho Xavier Previdelli

Educadora e pesquisadora independente – IA Inclusiva na Prática

Professora usando ferramentas de inteligência artificial para adaptar uma atividade impressa

IA para adaptar atividades: 5 ferramentas gratuitas em português

Atualizado em setembro de 2026. Esta versão substitui integralmente a publicada em março de 2025: duas das ferramentas indicadas naquele texto não passariam nos critérios de hoje, e você vai entender por quê logo abaixo.

O Censo Escolar 2025 registrou 2,5 milhões de matrículas na educação especial. Desses estudantes, 93,5% estão em classes comuns. E o Atendimento Educacional Especializado chega a menos da metade deles: 49,7%.

Traduzindo para a sua quinta-feira: metade dos estudantes com deficiência, autismo ou altas habilidades que estão na sala regular não tem AEE nenhum. Não tem sala de recursos, não tem professora especialista para dividir o planejamento. Tem você, 28 alunos, três adaptações para fazer e o intervalo acabando.

É para esse cenário que este artigo existe. Não é uma vitrine de aplicativos bonitos. São cinco ferramentas que eu testei, que funcionam em português, que têm versão gratuita de verdade e que se encaixam umas nas outras formando um fluxo de trabalho.

Os 5 critérios que usei para escolher

Toda lista de “ferramentas de IA para professores” que circula por aí tem o mesmo problema: ninguém diz como escolheu. Então aqui estão as minhas regras, antes das ferramentas.

  1. Funciona em português. Parece óbvio. Não é. A versão anterior deste artigo recomendava o Voiceitt, um aplicativo excelente de reconhecimento de fala atípica, que suporta apenas inglês e custa cerca de US$ 50 por mês. Para a professora brasileira, é uma recomendação que não se sustenta.
  2. Tem plano gratuito real. Não “sete dias de teste”. Gratuito para usar em setembro, outubro e no ano que vem.
  3. Não exige cadastrar dados do aluno. Nenhuma ferramenta desta lista pede nome, laudo, CID ou foto de estudante para funcionar.
  4. Roda no que você tem. Celular, ou um computador comum de escola pública. Nada que dependa de equipamento que a rede não comprou.
  5. Resolve uma barreira pedagógica específica. “É inteligência artificial” não é função. Por isso o Duolingo, que estava na versão antiga, saiu: é um bom aplicativo de idiomas, e não é uma ferramenta de inclusão.

Se uma ferramenta não passa nos cinco, ela não entra, por mais que esteja em alta.

1. ChatGPT, Gemini ou Claude: adaptar enunciado, prova e plano

Resolve: reescrever comandos, reduzir carga de leitura, criar versões de uma mesma avaliação, sugerir formatos alternativos de resposta.

Os modelos de linguagem generalistas são a ferramenta mais poderosa da lista e a mais mal utilizada. O erro mais comum é pedir “adapte esta atividade para um aluno autista”, e receber de volta uma atividade mais curta, mais infantil e mais pobre. O modelo não errou. A pergunta é que estava errada.

Adaptar não é simplificar. Adaptar é reorganizar o acesso ao conteúdo mantendo o objetivo de aprendizagem. Então o comando precisa dizer qual é o objetivo e qual é a barreira, sem nunca identificar o estudante.

Prompt que funciona:

“Você é especialista em Desenho Universal para a Aprendizagem. Objetivo de aprendizagem: identificar as características dos seres vivos. Público: 4º ano do ensino fundamental. Barreira: leitura de texto longo e enunciados com múltiplos comandos. Reescreva a atividade abaixo mantendo o mesmo objetivo, com um comando por etapa, linguagem direta e uma alternativa de resposta que não dependa de escrita extensa. Não reduza o conteúdo conceitual. [cole a atividade]”

Repare no que o prompt tem: objetivo, ano, barreira, instrução explícita de não empobrecer. E no que ele não tem: nome, laudo, diagnóstico, nada que identifique a criança. A barreira é pedagógica (“leitura de texto longo”), não clínica.

Limite honesto: o modelo inventa com confiança. Ele vai gerar uma atividade sobre um texto que não existe se você pedir mal, e vai propor adaptações genéricas se você não der contexto. Tudo que sair dali passa pela sua revisão antes de ir para a mão do aluno. Sempre.

Na próxima aula: pegue uma atividade que você já aplicou e que deu errado com algum estudante. Rode o prompt acima. Compare as duas versões lado a lado. Em cinco minutos você entende mais sobre adaptação do que em muita formação de 4 horas.

2. Leitor Imersivo: o texto que o aluno consegue ler

Resolve: barreiras de decodificação, fadiga visual, dificuldade de sustentar atenção em texto corrido.

O Leitor Imersivo é gratuito e está integrado ao Word, ao OneNote, ao Outlook, ao Teams, ao Forms e ao navegador Edge. Ele transforma qualquer texto em uma versão sem poluição visual, com controle de espaçamento entre letras e linhas, divisão de sílabas, leitura em voz alta com destaque acompanhando a palavra e destaque de classes gramaticais.

Atenção ao nome: no Edge, a Microsoft renomeou o recurso para Modo de Leitura a partir da versão 149. Se você procurar por “Leitor Imersivo” no navegador e não achar, é isso. No Word e no OneNote o nome antigo continua.

Para estudantes com dislexia, o ganho não é o texto ficar mais fácil, o conteúdo é o mesmo. O ganho é que a energia cognitiva que ia toda para decodificar sobra para compreender. É a diferença entre um aluno que “não entendeu o texto” e um aluno que gastou tudo que tinha só para chegar ao fim da frase.

Limite honesto: funciona melhor com texto digital. Atividade impressa e escaneada como imagem não é lida, para isso, veja a ferramenta 5.

Na próxima aula: abra sua atividade no Word, aperte em Exibir → Leitor Imersivo, aumente o espaçamento e ative a leitura em voz alta. Deixe o notebook ou o celular com fone disponível na carteira. Não anuncie para a turma que aquilo é “do aluno especial”, recurso que estigmatiza não é recurso, é etiqueta.

3. Canva: apoio visual sem poluição

Resolve: rotina visual, cartões de escolha, organizadores gráficos, sequências de passos.

O Canva tem plano gratuito e um programa específico para educação, com liberação de recursos pagos para professores da educação básica em instituições reconhecidas, mediante verificação. Ele entra nesta lista pela biblioteca de modelos e pela facilidade de montar um recurso visual limpo em dez minutos, não pela geração de imagem por IA.

Para pictograma, use banco de símbolos consistente: o ARASAAC, mantido pelo governo de Aragão, na Espanha, é gratuito, tem milhares de símbolos e permite uso pedagógico livre. Use o Canva para diagramar, não para inventar o símbolo.

Limite honesto: é fácil se empolgar. Borda decorativa, três fontes, fundo colorido. Cada elemento visual que não ajuda a compreender o conteúdo está competindo com ele.

Na próxima aula: monte uma rotina visual da aula em quatro quadros, o que vamos fazer primeiro, depois, depois e no fim. Fundo branco, um ícone por quadro, texto curto embaixo. Cole na parede à altura dos olhos das crianças. Serve para a turma inteira.

4. Prancha Fácil: comunicação alternativa gratuita e brasileira

Resolve: comunicação de estudantes não oralizados ou com fala minimamente funcional.

O Prancha Fácil é um software gratuito para Windows desenvolvido pelo NCE/UFRJ, voltado para Comunicação Aumentativa e Alternativa. Ele permite criar pranchas digitais com símbolos, imagens e textos personalizáveis, e pode ser acessado por mouse, toque, varredura ou rastreamento ocular.

Ele entra na lista no lugar de opções pagas por três motivos: é gratuito, é de universidade pública brasileira, e roda localmente, nada do que você monta para aquele estudante sai do computador da escola.

A CAA não é um recurso de último caso, para quando “nada mais funcionou”. É direito. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) trata a comunicação em formatos acessíveis como condição de acesso, não como favor pedagógico. E vale desfazer um mito que ainda circula em sala dos professores: oferecer CAA não atrasa a fala oral. A evidência aponta o contrário, o acesso à comunicação tende a favorecer, não a substituir, o desenvolvimento da linguagem.

Limite honesto: só funciona em Windows. Se a sua realidade é tablet ou celular, o LetMeTalk é a alternativa: gratuito, funciona sem internet e traz o banco do ARASAAC com mais de 9 mil pictogramas. Deixei o Livox de fora justamente porque exige assinatura, e esta lista precisa ser executável por quem ganha piso.

Na próxima aula: monte uma prancha mínima, de seis campos, sim, não, quero, não quero, ajuda, acabei. Seis. Não sessenta. Prancha grande demais é prancha que ninguém usa.

5. Seeing AI: da folha impressa para o texto editável

Resolve: acesso ao texto impresso para estudantes cegos e com baixa visão, e, para você, a digitalização da atividade que só existe em papel.

O Seeing AI é gratuito, funciona em iOS e Android e está em português. Ele usa a câmera do celular para reconhecer texto impresso e manuscrito, identificar objetos e descrever cenas.

Para o estudante com deficiência visual, ele é acesso direto ao material da aula. Para você, ele tem um uso menos óbvio: fotografar aquela atividade do livro didático que não existe em arquivo, reconhecer o texto e compartilhar esse texto, que aí entra na ferramenta 1 para ser adaptado. É assim que os cinco itens desta lista viram um fluxo em vez de cinco aplicativos soltos.

Limite honesto: se você só quer o texto digitalizado e não tem estudante com deficiência visual na turma, o Google Lens ou o Microsoft Lens fazem esse trabalho com menos passos. O Seeing AI vale quando o aluno também vai usar.

O fluxo completo: da folha impressa à atividade adaptada

Junte tudo e o processo fica assim, em cerca de 15 minutos:

  1. Capture. Fotografe a atividade impressa com o Seeing AI (ou Lens) e obtenha o texto.
  2. Defina o objetivo. Escreva, em uma frase, o que o estudante precisa aprender. Antes de pensar na atividade.
  3. Nomeie a barreira. Leitura extensa? Múltiplos comandos? Escrita? Tempo? Pedagógica, nunca clínica.
  4. Adapte. Rode o prompt da ferramenta 1 com objetivo + ano + barreira + texto.
  5. Revise. Leia como professora. Conferiu o conteúdo? Manteve o desafio? Tirou o quê, e por quê?
  6. Torne legível. Passe o resultado pelo Leitor Imersivo: espaçamento, fonte, voz.
  7. Ancore visualmente. Se precisar, um apoio visual no Canva com pictograma do ARASAAC.
  8. Garanta a resposta. Se o estudante usa CAA, prepare a prancha do vocabulário daquela aula.

Na primeira vez leva meia hora. Na quarta, leva dez minutos. E o passo 5 nunca é opcional.

O que você nunca deve colar numa IA

Esta seção é a mais importante do artigo, e a que menos aparece nas listas de ferramentas.

Quando você cola o nome de um estudante e o relatório dele numa ferramenta de IA, você está transferindo dado pessoal de criança para uma empresa, frequentemente fora do Brasil, muitas vezes com autorização de uso para treinamento de modelo.

A LGPD (Lei nº 13.709/2018) classifica dado de saúde como dado pessoal sensível e determina, no artigo 14, que o tratamento de dados de crianças e adolescentes seja feito em seu melhor interesse, com consentimento específico e destacado de pelo menos um dos responsáveis. Escola não tem esse consentimento para enviar laudo a chatbot. Ninguém tem.

Nunca envie:

  • Nome completo ou primeiro nome do estudante
  • Laudo, relatório médico, CID ou diagnóstico
  • Foto do aluno ou de trabalho com o nome dele
  • Endereço, matrícula, data de nascimento, nome dos responsáveis
  • Texto integral do PEI
  • Áudio ou vídeo de sessão, aula ou atendimento

Envie em vez disso: a barreira e o objetivo. “Estudante do 5º ano com barreira de leitura extensa e resposta escrita” diz à ferramenta tudo que ela precisa saber, e não diz nada que ela não deveria ter.

E vale lembrar: desde o Decreto nº 12.686/2025, alterado pelo Decreto nº 12.773/2025, que institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, a matrícula no AEE está desvinculada da apresentação de laudo. A lógica é pedagógica, não clínica. Seu prompt deve seguir a mesma lógica.

Resumo: as 5 ferramentas

FerramentaResolveCustoOnde roda
ChatGPT / Gemini / ClaudeAdaptar enunciado, prova, planoPlano gratuitoNavegador e celular
Leitor Imersivo (Microsoft)Leitura acessível, dislexia, atençãoGratuitoWord, OneNote, Teams, Edge
CanvaApoio visual, rotina, organizadoresGratuitoNavegador e celular
Prancha Fácil (NCE/UFRJ)Comunicação alternativaGratuitoWindows
Seeing AI (Microsoft)Texto impresso, baixa visão, digitalizaçãoGratuitoiOS e Android

O que a IA não faz por você

Ela não conhece o seu aluno. Não sabe que ele trava quando a folha tem mais de uma tarefa, que responde melhor de manhã, que o interesse por trens abre qualquer porta. Não percebe que a adaptação de terça funcionou e a de quinta não, e não sabe por quê.

Isso é você. E não é acessório, é o núcleo do trabalho. A ferramenta economiza os quarenta minutos de reescrever enunciado às onze da noite. O que ela devolve é tempo para a parte que só professora faz: observar, ajustar, insistir.

O Censo Escolar também mostra que apenas 11,3% dos gestores escolares têm formação continuada em educação especial. Você provavelmente está fazendo essa travessia com menos apoio institucional do que deveria ter. Não é falha sua. Mas enquanto a política pública alcança a sua escola, começar com uma ferramenta desta lista, numa atividade, nesta semana, já muda alguma coisa na segunda-feira.

Escolha uma. Só uma. E teste.


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Fontes

  • INEP/MEC. Censo Escolar da Educação Básica 2025 — notas estatísticas. Divulgado em 26/02/2026.
  • BRASIL. Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025, alterado pelo Decreto nº 12.773, de 9 de dezembro de 2025. Institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva.
  • BRASIL. Portaria MEC nº 421, de 15 de maio de 2026. Dispõe sobre a PNEEI e a Reneei.
  • BRASIL. Lei nº 13.146/2015 — Lei Brasileira de Inclusão.
  • BRASIL. Lei nº 13.709/2018 — Lei Geral de Proteção de Dados, art. 14.

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