Por Aline Coelho Xavier Previdelli
Educadora e pesquisadora independente – IA Inclusiva na Prática

Como escolher ferramentas de IA para a educação inclusiva: 7 critérios antes de usar
Em 2025, as discussões sobre regras para o uso de IA por alunos e professores passaram de 40% das escolas em 2024 para 60%, segundo a pesquisa TIC Educação do Cetic.br. A elaboração de orientações práticas, entretanto, não avançou no mesmo ritmo.
Na sala dos professores, a dúvida é bem mais concreta: “Posso colar o PEI da minha aluna nessa ferramenta que todo mundo está usando?”
Este artigo responde a essa pergunta e a várias outras. Você vai sair daqui com 7 critérios para avaliar qualquer ferramenta de IA, uma ficha de avaliação pronta e um teste de 15 minutos para fazer antes de levar a ferramenta para o seu planejamento.
📌 Nota de atualização: este artigo substituiu um tutorial antigo sobre a Eduaide.AI. Em vez de ensinar a usar uma ferramenta específica, que muda de interface a cada poucos meses, preferimos ensinar você a avaliar qualquer uma delas.
Por que escolher bem importa mais na educação inclusiva
Quando uma ferramenta de IA gera um plano de aula genérico ruim, você perde tempo. Quando ela gera uma adaptação ruim para um estudante com deficiência, o prejuízo é maior. Ela pode reforçar uma visão deficitária, reduzir o currículo sem critério ou expor dados sensíveis de uma criança.
Três fatos tornam essa escolha ainda mais séria hoje.
Os professores já estão usando IA. Na TIC Educação 2024, 43% dos professores disseram utilizar IA generativa na preparação de atividades. A questão não é mais “se”, e sim “qual” e “como”. Fundação Telefônica Vivo
Os dados de um estudante do AEE são dados sensíveis. Um laudo, um diagnóstico ou um relato de comportamento é informação de saúde. A LGPD (Lei nº 13.709/2018) exige que o tratamento de dados de crianças e adolescentes siga o seu melhor interesse.
A legislação ficou mais rigorosa. O ECA Digital (Lei nº 15.211/2025) está em vigor desde 17 de março de 2026. A lei não fala de escolas em todos os seus 41 artigos, mas a proteção de crianças e adolescentes no meio digital passou a ser responsabilidade compartilhada entre família, plataformas, poder público e também a instituição de ensino.
Por isso, escolher uma ferramenta é uma decisão pedagógica e ética, não uma questão de gosto.
Os 7 critérios para avaliar ferramentas de IA para educação inclusiva
1. Idioma e contexto brasileiro
Uma ferramenta pode até responder em português e mesmo assim “pensar” em outro sistema escolar. Os sinais disso são exemplos culturais que não fazem sentido para a sua turma, nomenclaturas de séries estrangeiras e referências a leis de outros países.
Pergunte: a interface está em português? As respostas soam naturais para uma turma brasileira? Ela entende termos como AEE, sala de recursos, PEI e mediação escolar?
2. Proteção de dados dos estudantes
Este é o critério eliminatório. Leia a política de privacidade procurando três informações: onde os dados ficam armazenados, se o que você digita é usado para treinar o modelo e se a empresa oferece contrato ou termo de uso para escolas.
Regra de ouro, qualquer que seja a ferramenta: nunca insira nome, foto, laudo, CID ou qualquer dado que identifique o estudante. Descreva o perfil de aprendizagem, não a pessoa.
| ❌ Em vez de… | ✅ Escreva… |
|---|---|
| “Maria Eduarda, 8 anos, TEA nível 2, laudo anexo” | “Estudante do 3º ano que se comunica melhor com apoio visual e precisa de comandos em etapas” |
3. Alinhamento curricular à BNCC
Uma boa adaptação mantém o objetivo de aprendizagem da turma. Para isso, a ferramenta precisa trabalhar com o currículo que você de fato segue.
Pergunte: consigo informar a habilidade da BNCC? A atividade gerada continua trabalhando essa habilidade, ou virou outra coisa, mais simples e desconectada?
4. Fundamentação pedagógica: barreira ou rótulo?
Esse critério diferencia as ferramentas feitas para inclusão das ferramentas genéricas com uma “função inclusão”. Desconfie de botões como “adaptar para autista” ou “versão TDAH”. Eles partem da ideia de que o diagnóstico define como alguém aprende, e o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) mostra o contrário.
Pergunte: a ferramenta pede informações sobre as barreiras que o estudante enfrenta e sobre seus pontos fortes? Ou pede só o diagnóstico?
5. Linguagem das respostas
Faça um teste simples: leia o que a IA produziu como se fosse a mãe do estudante lendo. Aparecem expressões como “portador de”, “sofre de autismo”, “criança especial” ou descrições centradas apenas no que o estudante “não consegue”?
Uma ferramenta que produz linguagem capacitista com frequência vai exigir tanta revisão que deixa de economizar o seu tempo.
6. Controle docente
A IA sugere e você decide. Uma boa ferramenta permite editar tudo o que ela gera, explica o raciocínio por trás da sugestão quando você pede e não empurra respostas prontas como se fossem definitivas.
Pergunte: consigo ajustar o nível de desafio, trocar o formato da resposta e rejeitar sugestões? Ou só recebo um PDF fechado?
7. Custo, acesso e realidade da escola
Uma ferramenta excelente que só funciona com internet rápida e computador novo não serve para boa parte das escolas brasileiras. Na TIC Educação 2024, somente 51% das instituições municipais possuíam computadores para uso educacional.
Pergunte: funciona bem no celular? A versão gratuita é suficiente para o uso real, ou o gratuito é só uma amostra? O material gerado pode ser impresso?
Ficha de avaliação: use com qualquer ferramenta
Copie esta tabela e preencha para cada ferramenta que você testar.
| Critério | Sinal verde 🟢 | Sinal de alerta 🔴 |
|---|---|---|
| Idioma e contexto | Português natural, entende AEE e PEI | Tradução literal, exemplos estrangeiros |
| Proteção de dados | Política clara, não treina com seus dados | Política vaga ou inexistente |
| BNCC | Aceita habilidade e mantém o objetivo | Gera atividade desconectada do currículo |
| Fundamentação | Pergunta sobre barreiras e potencialidades | Pede só o diagnóstico |
| Linguagem | Respeitosa, centrada na pessoa | “Portador”, “sofre de”, foco no déficit |
| Controle docente | Tudo editável e ajustável | Resultado fechado, sem ajustes |
| Acesso | Funciona no celular, gratuito é suficiente | Exige equipamento e plano pago |
Como decidir: um sinal vermelho em proteção de dados elimina a ferramenta para qualquer uso que envolva informações de estudantes. Nos outros critérios, dois ou mais sinais vermelhos indicam que o tempo que você gasta revisando provavelmente é maior do que o tempo que ela economiza.
O teste de 15 minutos: passo a passo
Antes de adotar uma ferramenta nova, faça este teste com uma atividade que você já conhece bem.
- Escolha uma atividade real que você já adaptou manualmente e que funcionou. Ela vai servir de gabarito.
- Descreva o perfil sem identificar ninguém. Use o modelo da tabela do critério 2.
- Informe o objetivo de aprendizagem, de preferência com a habilidade da BNCC.
- Peça a adaptação e anote quanto tempo levou.
- Compare com a sua versão. O objetivo foi mantido? A linguagem é adequada? O que você precisaria corrigir?
- Preencha a ficha de avaliação. Guarde-a. Em três ou quatro testes, você terá um repertório próprio de ferramentas confiáveis.
💡 Dica prática: faça o teste junto com uma colega do AEE ou com a coordenação. Duas leituras encontram problemas de linguagem que uma só deixa passar, e a escola começa a construir critérios em conjunto, que é exatamente o que falta segundo a pesquisa citada no início.
Exemplo: avaliando uma ferramenta estrangeira
Muitas professoras brasileiras conheceram ferramentas estrangeiras de IA para educação, como a Eduaide.AI, que foi tema de um tutorial antigo aqui no blog. Vamos aplicar os critérios.
Idioma e contexto: Mesmo quando a resposta sai em português, vale verificar se os exemplos e a organização escolar fazem sentido para a nossa realidade.
BNCC: ferramentas criadas para outros sistemas escolares organizam o conteúdo a partir de outros currículos. Teste se ela mantém uma habilidade da BNCC quando você informa o código.
Dados: leia a política de privacidade antes de qualquer uso. LGPD na educação inclusiva: guia prático para professores. Enquanto isso não estiver claro, use a ferramenta apenas para gerar ideias gerais de atividades, sem nenhuma informação sobre estudantes.
Conclusão do exemplo: ferramentas genéricas podem ajudar a gerar ideias de atividades para a turma toda. Para adaptações individualizadas, que envolvem o perfil de um estudante real, os critérios de dados, fundamentação e contexto brasileiro pesam mais.
Onde a IA ajuda e onde ela não substitui você
Uma ferramenta bem escolhida economiza horas na produção de materiais: variações de formato, apoios visuais, versões com comandos em etapas. Ela não substitui o que só você tem: a observação do estudante em sala, a conversa com a família, a leitura do PEI e a relação construída no dia a dia.
A melhor ferramenta é aquela que amplia o seu tempo para essa relação, em vez de competir com ela.
➡️ Aqui na IA Inclusiva, estamos desenvolvendo uma ferramenta de adaptação pensada a partir desses critérios: em português, baseada no DUA e nas barreiras de cada estudante. Conheça nossas ferramentas →
Conclusão
Você não precisa conhecer todas as ferramentas de IA do mercado. Elas mudam rápido demais para isso. O que você precisa é de um jeito confiável de avaliar qualquer uma que aparecer.
Com os 7 critérios e o teste de 15 minutos, a próxima indicação que chegar pelo grupo de professores vai passar pelo seu filtro antes de entrar no seu planejamento. E nenhum dado dos seus alunos vai parar em um lugar que você não escolheu.
Leia também:
- 👉 Atividade Adaptada para Autista (TEA): 3 Modelos Prontos + IA
- 👉 Plano de Aula com DUA e IA: Guia Prático para Professores
- 👉 Barreiras Enfrentadas por Autistas na Escola: Como Removê-las
- 👉 LGPD na educação inclusiva: guia prático para professores.
Referências
BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), art. 14.
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.
BRASIL. Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025. Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital).
CAST (2024). Universal Design for Learning Guidelines version 3.0. Disponível em: https://udlguidelines.cast.org
CETIC.BR / NIC.BR. Pesquisa TIC Educação 2024. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2025.
CETIC.BR / NIC.BR. Pesquisa TIC Educação 2025. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2026.
UNESCO (2023). Guidance for generative AI in education and research. Paris: UNESCO.


