Por Aline Coelho Xavier Previdelli
Educadora e pesquisadora independente – IA Inclusiva na Prática

PEI pronto, e agora? Como levar o plano para a sala de aula
Segunda-feira, 7h10. O PEI da Laura está assinado, tem doze páginas e mora numa pasta na coordenação. Na sua mesa, o livro do 5º ano está aberto no capítulo de frações. A aula começa em vinte minutos.
Entre o documento e a aula existe um vão. E é nesse vão que a maioria das adaptações acontece: no improviso, na folhinha separada, na atividade “mais fácil” que às vezes nem é do 5º ano.
Este artigo é sobre atravessar esse vão. Você vai sair daqui com um fluxo de quatro passos para usar o PEI dentro do planejamento que você já faz, sem planejar duas vezes e sem tirar o estudante da turma.
Por que o PEI agora pede mais do que preenchimento
O PEI deixou de ser opcional. O Decreto nº 12.686/2025, com a redação dada pelo Decreto nº 12.773/2025, torna obrigatório um documento pedagógico individualizado, como o PEI, derivado do estudo de caso e com atualização contínua. O mesmo artigo diz que esse documento compõe o projeto político-pedagógico da escola (Planalto).
Isso é uma mudança grande. Em 2018, Tannús-Valadão e Mendes observavam que o Brasil não tinha dispositivos legais que garantissem ao estudante um PEI baseado em suas peculiaridades. Agora tem. O desafio deixou de ser a existência do documento e passou a ser o seu uso.
Repare na expressão “atualização contínua”. Ela só faz sentido se o PEI estiver sendo usado. Um documento que fica na pasta não tem o que atualizar.
E onde ele precisa ser usado? Na sala comum. O Censo Escolar 2025 registrou cerca de 2,5 milhões de estudantes público da educação especial na educação básica, e 96% deles estão em classes comuns (MPMG, com dados do Inep). O PEI, portanto, precisa funcionar na sua aula de frações, com mais 29 estudantes na sala.
Onde o PEI e o planejamento se desencontram
Não é falta de vontade. É que os dois documentos falam línguas diferentes.
| O PEI fala em… | O seu planejamento fala em… | |
|---|---|---|
| Tempo | metas anuais ou semestrais | a aula de amanhã, a semana |
| Ponto de partida | o estudante | o currículo da turma |
| Nível de detalhe | “utilizar apoio visual” | “página 47, exercícios 1 a 5” |
| Onde fica | pasta da coordenação ou sistema | livro, caderno, planner, celular |
Ninguém faz a tradução entre uma coluna e outra. Então o PEI vira um planejamento paralelo, feito às pressas. E aí aparecem três sintomas conhecidos:
- O improviso: a adaptação nasce no momento em que o estudante “trava”.
- O currículo abandonado: a atividade segue o que o estudante “consegue fazer”, não o que a turma está aprendendo.
- A infantilização: um estudante de 10 anos recebe material de educação infantil, com estética de educação infantil.
Se você se reconheceu em algum deles, saiba que é o desenho do processo que falha, não você.
Antes de seguir: conte como é para você
Estamos ouvindo professoras e professores do Brasil inteiro sobre isso. Sua resposta leva dez segundos, é anônima e você vê o resultado na hora.
Se você marcou “minha experiência é diferente”, conta nos comentários. É desse tipo de relato que saem os próximos artigos.
A virada: o PEI não é um segundo planejamento
Aqui está a ideia que muda tudo: o PEI é uma lente sobre o planejamento que você já faz.
Você continua planejando para a turma, com o livro, o caderno, o material da colega. Depois passa esse plano pelo PEI e faz uma única pergunta: o que muda para esta estudante nesta aula?
Isso é Desenho Universal para a Aprendizagem na prática. Primeiro se planeja para todos. Depois o PEI mostra onde um apoio específico precisa entrar. O estudante fica com a turma, no currículo da turma, e você não dobra o trabalho.
PEI na prática: o fluxo em quatro passos
Passo 0 — Uma vez por bimestre: transforme o PEI em um cartão de uma página.
Doze páginas não cabem na sua segunda-feira. Uma página cabe. O cartão tem cinco campos:
- De 3 a 5 metas prioritárias do bimestre, escritas como algo que você consegue observar (“identifica metade e um terço com material concreto”, e não “desenvolver o raciocínio matemático”).
- As principais barreiras da estudante na escola (não “o que ela não sabe”, mas o que no ambiente atrapalha).
- Os apoios que já funcionam.
- Os interesses que podem servir de âncora.
- Um campo “o que evitar” (por exemplo: material com estética infantil, comandos longos em um só parágrafo).
Se o PEI foi construído em equipe, faça o cartão com o AEE. São quinze minutos que economizam o bimestre inteiro.
Passo 1 — Toda semana: comece pelo que a turma vai fazer.
Habilidade, tema, atividade, página do livro. Nada de novo aqui. É o planejamento que você já faz.
Passo 2 — Cruze com o cartão.
Para cada aula, pergunte: qual meta do cartão conversa com esta aula? Nem toda aula precisa mover todas as metas. E algumas metas, como comunicação, autonomia e organização, cabem em quase qualquer aula.
Passo 3 — Escolha o menor ajuste suficiente.
Aqui entra a escada de ajustes. Comece pelo degrau mais baixo e só suba se for preciso.
| Degrau | O que muda | Exemplo |
|---|---|---|
| 1. Nenhum ajuste | Nada. A estudante participa como a turma. | Roda de conversa sobre onde usamos frações no dia a dia |
| 2. Apoio de acesso | Como a informação chega e como ela responde | Enunciado dividido em etapas, prancha de CAA com o vocabulário da aula |
| 3. Menos demanda que não é o foco | Retira o que não é a habilidade trabalhada | Ela não copia os problemas do quadro; recebe impressos e resolve |
| 4. Mesmo tema, outra porta de entrada | Habilidade anterior, mas com o conteúdo e a estética da turma | A turma soma frações; ela divide uma receita em partes iguais com material concreto |
O degrau 4 é a resposta para a infantilização. Nível de complexidade não é idade do material. Uma estudante de 10 anos pode trabalhar uma habilidade anterior com o tema, a linguagem e a estética do 5º ano. O tema é sempre o da turma, e é isso que garante pertencimento.
Passo 4 — Registre em uma linha.
Uma linha por semana, ligada à meta. É isso que alimenta a “atualização contínua” que a legislação pede, com evidência e não com memória.
| Semana | Meta do cartão | Funcionou? | O que observei |
|---|---|---|---|
| 10 a 14/11 | Identificar metade e um terço com material concreto | Em parte | Acertou metade com a receita; terço ainda com apoio |
Um exemplo completo, do livro ao ajuste
Laura tem 10 anos, está no 5º ano, é autista e se comunica principalmente por Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA). Ela gosta muito de culinária. Duas metas do cartão dela: usar a CAA para responder em atividades da turma e relacionar partes e todo com material concreto.
A turma vai trabalhar adição de frações com uma receita de bolo (página do livro). Com o fluxo:
- Passo 1: aula de frações com receita, em duplas.
- Passo 2: as duas metas conversam com a aula. A receita ainda toca no interesse dela.
- Passo 3: degrau 2 para a comunicação (prancha com “metade”, “um terço”, “inteiro”, “mais”, “menos”) e degrau 4 para a matemática (ela divide a receita em partes iguais com medidores reais enquanto a dupla registra a soma).
- Passo 4: uma linha no registro ao fim da semana.
Laura participou da mesma aula, com a mesma dupla, o mesmo tema e uma tarefa que conversa com o PEI dela. Nenhuma folhinha separada. Nenhum desenho de ursinho. E lembre: a CAA é direito de comunicação dela em todas as aulas, não um recurso só do AEE.
Onde a IA pode ajudar, e onde ela não entra
A parte mais trabalhosa do fluxo é o passo 2: cruzar a aula da semana com as metas. É justamente aí que uma IA bem orientada ajuda. Você descreve a aula da turma, ela sugere qual meta conversa com aquela aula e propõe ajustes em cada degrau.
Três cuidados:
- A decisão é sua. A IA propõe; quem conhece a estudante, a turma e o contexto é você.
- Nunca insira dados que identifiquem o estudante (nome, laudo, escola) em ferramentas abertas. Descreva barreiras e metas, não a pessoa.
- Revise antes de entregar. Confira se o ajuste manteve a habilidade da turma e se não infantilizou o material.
Recapitulando
| Quando | O que fazer | Tempo |
|---|---|---|
| Uma vez por bimestre | Transformar o PEI em cartão de uma página | cerca de 15 minutos |
| Toda semana | Partir do plano da turma e cruzar com o cartão | dentro do seu planejamento |
| Em cada aula | Escolher o menor degrau suficiente | alguns minutos |
| Fim da semana | Registrar uma linha por meta | 2 minutos |
O próximo passo é seu
Você não precisa reorganizar o ano inteiro. Escolha um estudante, faça o cartão de uma página e aplique o fluxo em uma semana. No fim dela, olhe o registro. Ele vai dizer mais sobre o que funciona do que qualquer modelo pronto.
O PEI só vira inclusão quando entra na sala. E quem leva o PEI para dentro da sala é você.
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Referências
- BRASIL. Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025. Institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva. Diário Oficial da União, Brasília, 2025.
- BRASIL. Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025. Altera o Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025. Diário Oficial da União, Brasília, 9 dez. 2025.
- CAST. Universal Design for Learning Guidelines version 3.0. Lynnfield, MA: CAST, 2024.
- MINISTÉRIO PÚBLICO DE MINAS GERAIS. Garantia do direito à educação especial inclusiva: Política Nacional de Educação Especial Inclusiva. Informação Técnico-Jurídica CAOEDUC nº 10/2026. Belo Horizonte: MPMG, 2026. (Dados do Censo Escolar 2025/Inep.)
- TANNÚS-VALADÃO, Gabriela; MENDES, Enicéia Gonçalves. Inclusão escolar e o planejamento educacional individualizado: estudo comparativo sobre práticas de planejamento em diferentes países. Revista Brasileira de Educação, v. 23, e230076, 2018.

