Por Aline Coelho Xavier Previdelli
Educadora e pesquisadora independente – IA Inclusiva na Prática

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📅 Atualizado em setembro de 2026
A pergunta que falta ser feita
Todo setembro, o Brasil se veste de amarelo. Escolas, empresas e até o comércio abraçam a prevenção do suicídio e a valorização da vida. Mas uma pergunta precisa ecoar: quando falamos de saúde mental na escola, estamos realmente alcançando todos os alunos?
Estudantes autistas, com TDAH, dislexia ou altas habilidades raramente aparecem nas ações de conscientização. E, quando a atividade não conversa com o jeito como eles sentem, se comunicam e aprendem, a mensagem que chega é outra: “isso não é para você”.
Setembro também é o mês do Setembro Verde, que inclui o dia 21, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Unir as duas campanhas é um bom ponto de partida para um cuidado que inclua de verdade.
O que diz a cartilha da ABP e o que ainda falta
A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) publicou um material valioso sobre como falar de saúde mental com crianças e adolescentes. O guia orienta famílias e educadores a usar linguagem simples, validar emoções, ouvir os jovens e criar espaços de diálogo.
O que ainda falta é um olhar explícito para os estudantes neurodivergentes. Linguagem simples ajuda, mas nem sempre basta para um aluno que não verbaliza emoções, que processa informações de forma literal ou que se sobrecarrega em uma roda de conversa barulhenta.
O que as pesquisas mostram
Os dados pedem atenção, não alarme. Veja o que os estudos indicam:
- Autismo: uma meta-análise estimou que pessoas autistas têm cerca de quatro vezes mais chance de ter depressão ao longo da vida do que pessoas não autistas (Hudson et al., 2019), e a ansiedade também aparece com frequência bem maior do que na população geral (Lai et al., 2019). Um grande estudo sueco encontrou risco de suicídio mais elevado entre pessoas autistas, especialmente entre mulheres, um grupo que muitas vezes recebe o diagnóstico tarde (Hirvikoski et al., 2016).
- TDAH: uma meta-análise encontrou associação entre TDAH e comportamentos do espectro suicida, como ideação e tentativas (Septier et al., 2019).
- Altas habilidades/superdotação: as pesquisas não indicam que a superdotação, por si só, aumente o risco de depressão ou ansiedade (Martin, Burns e Schonlau, 2010). O ponto de atenção costuma estar no desencontro entre o estudante e o ambiente escolar, e nos casos de dupla excepcionalidade.
Há um dado importante para não perder de vista: um estudo finlandês observou que o risco maior de autolesão entre pessoas autistas estava ligado principalmente a condições de saúde mental associadas, como ansiedade e depressão. E essas condições têm tratamento. A escola pode ajudar a percebê-las cedo.
Por que o Setembro Amarelo precisa ser inclusivo
Muitos estudantes neurodivergentes aprendem a esconder o que sentem para “parecer iguais” aos colegas, a chamada camuflagem social. Por fora, parece que está tudo bem. Por dentro, o esforço é enorme.
Um Setembro Amarelo verdadeiramente inclusivo:
- reconhece os diferentes modos de sentir, expressar e aprender;
- oferece mais de uma forma de participar (falar, apontar, desenhar, escrever ou só observar);
- cuida do ambiente sensorial das atividades;
- inclui as famílias e cuidadores, que também carregam sobrecargas emocionais diárias.
Sinais de alerta e como podem aparecer em alunos neurodivergentes
Alguns sinais pedem atenção em qualquer estudante:
- falar sobre querer morrer, sobre ser um peso ou sobre não ver sentido na vida;
- isolamento repentino de colegas, família ou atividades;
- mudanças bruscas de comportamento, sono ou apetite;
- despedidas fora de contexto ou desfazer-se de objetos importantes.
Em alunos neurodivergentes, o sofrimento também pode aparecer de outras formas:
- aumento de crises de sobrecarga ou de “desligamentos” (shutdowns);
- perda de habilidades que o aluno já dominava;
- abandono de um interesse intenso que antes o animava;
- frases ditas de forma direta e literal que os adultos tendem a minimizar.
Nenhum sinal isolado é diagnóstico. Mas todo sinal merece escuta, e nunca deve ser tratado como “manha” ou “busca por atenção”.
Se um aluno revelar sofrimento: o que fazer
- Acolha e escute sem julgar. Agradeça a confiança. Frases como “obrigada por me contar” ajudam mais do que conselhos rápidos.
- Não prometa segredo. Explique com calma que, para cuidar dele, você vai precisar pedir ajuda a outros adultos.
- Em risco imediato, não deixe o estudante sozinho e acione o SAMU 192.
- Comunique a gestão escolar e a família, seguindo o fluxo da sua escola.
- Acione a rede: Unidade Básica de Saúde, CAPS e, quando necessário, o Conselho Tutelar. A Lei nº 13.819/2019 prevê que os estabelecimentos de ensino comuniquem ao Conselho Tutelar os casos suspeitos ou confirmados de violência autoprovocada.
- Cuide de você também. Acolher sofrimento mobiliza. Converse com a equipe e busque apoio.
💡 Dica para a gestão: defina esse fluxo antes de setembro começar. Quando a situação acontece, ninguém deveria precisar improvisar.
Estratégias práticas para professores e escolas
Antes de começar, um cuidado: em sala, prefira atividades de promoção de saúde mental e pertencimento. Conversas sobre suicídio em si pedem preparo e o apoio de profissionais de saúde. Avise as famílias sobre as atividades e antecipe para a turma o que vai acontecer; previsibilidade reduz ansiedade.
1. Roda das Emoções com pictogramas
Cada aluno escolhe uma imagem que representa como está se sentindo. Ofereça também a opção “prefiro não dizer” e a possibilidade de mostrar só para você, sem expor para a turma.
2. Cartão do Acolhimento
Cartões digitais ou impressos com frases curtas e diretas: “Você não está só”, “Estou aqui para ouvir você”. Para alunos que usam CAA, inclua símbolos junto ao texto.
3. Jogo dos 3 Minutos
Uma pausa rápida de respiração ou contagem até dez. Se usar música, mantenha o volume baixo e avise antes; para alguns alunos, silêncio funciona melhor.
4. Caixa da Esperança
Cada aluno escreve, desenha ou cola uma imagem de algo que lhe dá alegria ou esperança. Interesses intensos são bem-vindos aqui: dinossauros, trens e mapas também contam.
IA com responsabilidade nesse tema
A inteligência artificial pode ajudar você a planejar atividades acessíveis. Por exemplo:
“Crie um roteiro de roda de conversa de 10 minutos sobre emoções para uma turma do 5º ano que inclui um aluno autista não verbal que usa pranchas de comunicação. Sugira formas de participação sem fala e adaptações sensoriais.”
Aplicativos de voz e recursos de CAA também ajudam estudantes que têm dificuldade de verbalizar sentimentos.
Um limite importante: chatbots de uso geral não devem ser indicados a estudantes como apoio emocional. Eles não foram feitos para lidar com crises, têm idade mínima de uso e não substituem uma pessoa de confiança nem os serviços de saúde. Com crianças e adolescentes, a IA fica nas mãos do adulto, no planejamento.
Base legal que sustenta essa inclusão
- Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015): garante a participação das pessoas com deficiência em igualdade de condições, inclusive nas ações de saúde e educação.
- BNCC: a competência geral 8 trata de autoconhecimento e do cuidado com a saúde física e emocional.
- Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994): afirma o compromisso com escolas que acolham todos os estudantes.
- Lei nº 13.819/2019: institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio.
- Lei nº 13.935/2019: prevê serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica.
Conclusão: incluir é cuidar da vida
O Setembro Amarelo não pode ser só uma campanha simbólica, nem durar apenas um mês. Reconhecer que a saúde mental de estudantes neurodivergentes pede atenção específica é uma urgência pedagógica e humana.
Escolha uma das atividades deste artigo para esta semana e, junto com a coordenação, confirme qual é o fluxo da escola caso um aluno precise de ajuda. Esses dois passos já tornam o cuidado mais concreto. 🌻
💛 Precisa conversar? CVV: 188 ou cvv.org.br (gratuito, 24 horas). Emergência: SAMU 192.
Leia também:
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- 👉 TDAH não é moda: como a IA pode ajudar alunos com TDAH
Referências
CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA (CVV). cvv.org.br
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA. Como falar sobre saúde mental com crianças e adolescentes. 2025. Acesse a cartilha
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.
BRASIL. Lei nº 13.819, de 26 de abril de 2019. Institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio.
BRASIL. Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019. Dispõe sobre a prestação de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
UNESCO. Declaração de Salamanca sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais. 1994.
HIRVIKOSKI, T. et al. Premature mortality in autism spectrum disorder. British Journal of Psychiatry, v. 208, n. 3, p. 232–238, 2016. DOI
HUDSON, C. C.; HALL, L.; HARKNESS, K. L. Prevalence of depressive disorders in individuals with autism spectrum disorder: a meta-analysis. Journal of Abnormal Child Psychology, 2019.
LAI, M.-C. et al. Prevalence of co-occurring mental health diagnoses in the autism population: a systematic review and meta-analysis. The Lancet Psychiatry, 2019.
SEPTIER, M. et al. Association between suicidal spectrum behaviors and attention-deficit/hyperactivity disorder: a systematic review and meta-analysis. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2019.
MARTIN, L. T.; BURNS, R. M.; SCHONLAU, M. Mental disorders among gifted and nongifted youth: a selected review of the epidemiologic literature. Gifted Child Quarterly, 2010.
Risk for premature mortality and intentional self-harm in autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, 2020. Springer
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Preventing suicide: a resource for media professionals. Genebra: OMS, 2023.

