Por Aline Coelho Xavier Previdelli
Educadora e pesquisadora independente – IA Inclusiva na Prática

Setembro Verde na escola: atividades de inclusão da pessoa com deficiência para o 21 de setembro
A inclusão já está na sua sala de aula. Segundo o Censo Escolar 2025, as matrículas da Educação Especial chegaram a 2,5 milhões, e 93,5% dos estudantes desse público, de 4 a 17 anos, estão em classes comuns. Mas a mesma pesquisa mostra que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) chega a só 49,7% dos estudantes da educação especial matriculados em classes comuns.
Ou seja, estar na escola não é o mesmo que participar dela. O Setembro Verde é a oportunidade de trabalhar a inclusão da pessoa com deficiência com a turma inteira. Neste guia, você encontra a origem da data, o que evitar e atividades por etapa, cada uma com sugestões de adaptação, para que todos participem de verdade.
Atenção: Setembro Verde tem dois significados. O mês também é usado para a campanha de conscientização sobre a doação de órgãos. Este artigo trata do Setembro Verde da inclusão da pessoa com deficiência, ligado ao Dia Nacional de Luta, em 21 de setembro.
O que é o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência
O dia 21 de setembro foi criado por movimentos sociais em 1982 e oficializado pela Lei nº 11.133, de 14 de julho de 2005. Quem propôs a data foi o ativista Cândido Pinto de Melo, um dos fundadores do Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes (MDPD), grupo de pessoas com deficiência que se reunia mensalmente desde 1979.
Sobre o termo usado na lei: o texto original de 2005 fala em “pessoa portadora de deficiência”. A expressão caiu em desuso, porque deficiência não é algo que se porta, como um objeto que se carrega e se larga. A Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada ao Brasil em 2009, e a LBI (2015) consolidaram o termo correto: pessoa com deficiência.
A escolha tem um simbolismo bonito: a data fica perto do início da primavera e coincide com o Dia da Árvore. O renascimento das plantas representa a renovação das reivindicações por cidadania, inclusão e participação plena na sociedade.
Repare na palavra do nome: luta. Não é um “dia da pessoa especial” nem um dia de homenagem. É um dia de direitos, criado pelas próprias pessoas com deficiência. Esse é o espírito do lema do movimento: “Nada sobre nós sem nós.”
Por que levar o Setembro Verde para a escola
Três motivos para não deixar a data passar como mais um cartaz no mural:
- A escola é o primeiro espaço público da vida da criança. É ali que ela aprende se a diferença é algo a esconder ou algo que faz parte.
- O capacitismo se aprende cedo, e também pode ser desaprendido cedo. Capacitismo é o preconceito que trata a pessoa com deficiência como incapaz ou “menos”. A LBI (Lei 13.146/2015) proíbe qualquer forma de discriminação por deficiência.
- A inclusão é responsabilidade de toda a escola, e não só do AEE. Os dados do Censo mostram que a gestão também precisa de formação: só 11,3% dos gestores escolares tinham formação continuada em Educação Especial em 2025.
O que evitar: capacitismo disfarçado de homenagem
Muitas atividades bem-intencionadas reforçam justamente o que a data quer combater.
| Evite | Faça em vez disso |
|---|---|
| Simular deficiências (vendar os olhos, “passar um dia em cadeira de rodas”). Isso gera pena e medo, não compreensão. | Investigar barreiras: o que impede alguém de circular, entender ou participar na escola? |
| Histórias de “superação” que tratam a pessoa com deficiência como exemplo ou inspiração. | Histórias em que a pessoa com deficiência é protagonista de uma vida comum: trabalha, estuda, ama, discorda. |
| Transformar o colega com deficiência em tema (“vamos conhecer a condição do João”). | Atividade da turma inteira, na qual o João participa como todo mundo, e só fala de si se quiser. |
| Termos como “portador”, “especial”, “excepcional”. | “Pessoa com deficiência”, “estudante com deficiência”, “pessoa surda”, “pessoa autista” (termo usado por boa parte da comunidade autista). |
| Uma atividade que só os estudantes sem deficiência conseguem fazer. | Planejar com DUA desde o início: várias formas de participar e de responder. |
💡 Dica prática: antes de aplicar qualquer atividade, pergunte-se: “Se uma pessoa com deficiência adulta visse isso, ela se sentiria respeitada?” Se a resposta não for um “sim” claro, reveja.
Atividades de Setembro Verde por etapa
Cada atividade traz o objetivo, o passo a passo e como adaptar, para que ninguém fique só olhando.
Educação Infantil
1. A Árvore da Turma 🌳
Objetivo: reconhecer que cada pessoa é diferente e que todos fazem parte do grupo.
Como fazer: monte o tronco de uma árvore no mural, ligando a atividade ao Dia da Árvore. Cada criança cria uma folha com algo de que gosta e algo em que precisa de ajuda. Converse: “todo mundo precisa de ajuda em alguma coisa”.
Como adaptar:
- A folha pode ser desenhada, colada com recortes, feita com carimbo de mão ou escolhida entre fotos.
- Crianças que usam comunicação alternativa (CAA) apontam as opções em uma prancha.
- Deixe a árvore numa altura acessível para quem usa cadeira de rodas.
2. Roda de histórias com personagens diversos 📚
Objetivo: ver pessoas com deficiência em histórias do dia a dia.
Como fazer: escolha livros em que o personagem com deficiência vive aventuras, e não apenas “supera” a deficiência. Depois, pergunte: “O que esse personagem gosta de fazer? Com quem ele brinca?”
Como adaptar:
- Leia com o livro em mãos e, se possível, também com imagens projetadas.
- Use objetos concretos ligados à história.
- Aceite respostas faladas, gestuais ou apontadas.
Anos iniciais do Ensino Fundamental
3. Detetives de barreiras 🔍
Objetivo: entender que a deficiência encontra barreiras no ambiente, e que barreiras podem ser removidas.
Como fazer: em grupos, as crianças percorrem a escola e registram tudo que dificultaria a vida de alguém: degrau sem rampa, cartaz alto, porta pesada, barulho excessivo, placa só com texto. Cada grupo propõe uma solução e apresenta à direção.
Como adaptar:
- O registro pode ser por foto, desenho, áudio ou lista de marcar.
- Distribua papéis variados: fotógrafo, anotador, apresentador, medidor.
- Estudantes autistas podem receber o roteiro do percurso com antecedência.
4. Quem foi Cândido Pinto de Melo? 👤
Objetivo: conhecer a história da data e o protagonismo das pessoas com deficiência.
Como fazer: conte a história do ativista que propôs o 21 de setembro. Discuta com a turma: por que é importante que as próprias pessoas com deficiência lutem pelos seus direitos?
Como adaptar:
- Ofereça a biografia em linguagem simples, com linha do tempo ilustrada.
- A resposta final pode ser um desenho, uma frase ou uma gravação.
5. Olá em Libras 👋
Objetivo: reconhecer a Libras como língua da comunidade surda brasileira.
Como fazer: use vídeos gravados por pessoas surdas para ensinar cumprimentos básicos. Explique que Libras é uma língua completa, com gramática própria, e não “mímica”.
Como adaptar:
- Mostre vídeos com legenda.
- Treine em duplas.
- Aceite que cada estudante reproduza o sinal no próprio ritmo.
- Se houver estudante surdo na turma, convide-o a ensinar, se ele quiser.
Anos finais e Ensino Médio
6. Os números da desigualdade (Matemática + Ciências Humanas) 📊
Objetivo: interpretar dados reais sobre inclusão.
Como fazer: apresente dados da PNAD Contínua 2022. Por exemplo, o nível de ocupação das pessoas com deficiência foi de 26,6%, menos da metade dos 60,7% das pessoas sem deficiência. A turma constrói gráficos, calcula diferenças e discute: essa diferença é por falta de capacidade ou por barreiras?
Como adaptar:
- Ofereça tabelas já organizadas, calculadora e modelos de gráfico parcialmente prontos.
- A resposta pode ser em gráfico, texto curto ou apresentação oral.
7. Capacitismo na mídia 📺
Objetivo: reconhecer estereótipos sobre pessoas com deficiência.
Como fazer: a turma analisa propagandas, notícias ou cenas de novela. Perguntas: a pessoa com deficiência aparece como vítima, como herói ou como alguém comum? Quem conta a história dela? Depois, a turma reescreve uma manchete sem capacitismo.
Como adaptar:
- Selecione trechos curtos, com legenda.
- Entregue um roteiro de análise com perguntas fechadas e abertas.
- Aceite respostas em áudio.
8. Auditoria de acessibilidade com proposta à gestão 📝
Objetivo: exercer cidadania com base na lei.
Como fazer: é a versão aprofundada da atividade 3. Os estudantes consultam a LBI, avaliam a escola e escrevem uma carta formal à direção com problemas, fundamentação legal e propostas.
Como adaptar:
- Forneça um modelo de carta com lacunas.
- Divida em tarefas por grupo.
- Ofereça a LBI em trechos selecionados e em linguagem simples.
Como adaptar qualquer atividade: DUA em 3 perguntas
As atividades acima já trazem sugestões, mas você pode adaptar qualquer outra usando os três princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA):
- Engajamento: por que esse estudante se interessaria? Posso ligar a atividade a algo de que ele gosta?
- Representação: o conteúdo chega de mais de uma forma, como texto, imagem, vídeo ou objeto concreto?
- Ação e expressão: o estudante pode mostrar o que aprendeu de mais de um jeito, como falando, desenhando, apontando, gravando ou montando?
Se as três respostas forem “sim”, a atividade provavelmente já é inclusiva para a maioria da turma. Para estudantes autistas, veja também nosso guia de [Atividade adaptada para autista].
Use a IA para preparar em menos tempo
A inteligência artificial pode ajudar você a preparar os materiais. As decisões pedagógicas continuam sendo suas. Três prompts prontos:
Texto em linguagem simples: “Escreva um texto curto, em linguagem simples, para crianças de 8 anos, explicando por que existe o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, em 21 de setembro. Frases curtas, tom respeitoso, sem tratar a deficiência como tragédia ou superação.”
Atividade em 3 versões: “Adapte esta atividade em três versões com o mesmo objetivo: uma com apoio visual, uma com resposta oral ou por escolha de imagens, uma com desafio extra. [cole a atividade]”
Roda de conversa: “Crie 6 perguntas para uma roda de conversa sobre barreiras e acessibilidade na escola, para estudantes do 5º ano. Evite perguntas que exponham colegas com deficiência.”
Lembre-se: não insira nomes, laudos ou dados pessoais de estudantes, e revise sempre o que a IA produz. Ela pode repetir estereótipos.
Se quiser adaptar atividades a partir do perfil de um estudante específico, o Adaptador Inteligente faz isso com base no DUA. Experimente gratuitamente →
Depois do dia 21: inclusão o ano inteiro
O Setembro Verde funciona melhor como um começo do que como um evento. Três compromissos simples para depois da data:
- Leve as propostas dos “detetives de barreiras” adiante com a gestão, e conte para a turma o que mudou.
- Revise o PEI dos estudantes público da Educação Especial com o olhar da participação: onde ele ainda só assiste?
- Ouça os estudantes com deficiência sobre o que funciona para eles. Nada sobre nós sem nós vale também na sala de aula.
Perguntas frequentes
O que é o Setembro Verde?
É o mês de conscientização sobre a inclusão da pessoa com deficiência, marcado pelo Dia Nacional de Luta, em 21 de setembro. O nome também é usado para a campanha de doação de órgãos.
Por que o Dia de Luta da Pessoa com Deficiência é em 21 de setembro?
Porque a data fica perto da primavera e coincide com o Dia da Árvore. O renascimento das plantas simboliza a renovação da luta por direitos.
Qual lei criou o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência?
A Lei nº 11.133/2005 oficializou a data, que já era celebrada pelos movimentos sociais desde 1982.
Como trabalhar o Setembro Verde na educação infantil?
Com atividades concretas e coletivas, como a Árvore da Turma e rodas de histórias com personagens diversos. Evite simulações de deficiência.
Simular deficiência é uma boa atividade de conscientização?
Não é recomendado. Esse tipo de dinâmica tende a gerar pena ou medo e foca na limitação, e não nas barreiras. Prefira atividades que investiguem e removam barreiras.
Conclusão
O 21 de setembro não pede cartazes sobre “pessoas especiais”. Ele pede que a sua turma perceba que a inclusão é feita de escolhas diárias: uma rampa, um vídeo com legenda, uma atividade com mais de uma forma de responder.
Escolha uma das atividades acima, adapte para a sua turma e observe quem começa a participar mais. Esse é o melhor indicador de que o Setembro Verde funcionou.
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Referências
- BRASIL. Lei nº 11.133, de 14 de julho de 2005. Institui o Dia Nacional de Luta da Pessoa Portadora de Deficiência.
- BRASIL. Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão). planalto.gov.br
- INEP. Censo Escolar da Educação Básica 2025: notas estatísticas.
- IBGE. PNAD Contínua: Pessoas com deficiência 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
- Instituto Rodrigo Mendes. Panorama da Educação Especial 2025.

